quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

PÁGINA VIRADA


Chega a doer,
Silêncio na escuridão,
Abraço perdido no tempo.

Chega a doer,
Dias desperdiçados,
Orgulho fadado,
Egoísmo calculista,
Inocência displicente.

Chega a doer
Saber que já não dói mais,
Fique sabendo
Você é página virada
Nessa minha série chamada
Amor não correspondido

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

AQUELE QUE FALO COM DEUS

Hora do ócio, mas a mente não para de pensar, de viajar, de ser palavra. E por conta dessa sua eterna inquisição, deixo de abrir os sites da Amazon, La Republica e G1, para escancarar o word e encher a página branca. Uma tentativa vã de me esvaziar, de parar de ouvir frases, respostas para mensagens revisadas com mais empoderamento para meus sentimentos, versos soltos – que ganham brilho ao som de Norah Jones, Amy, Dido, Diana Krall, Elisa – vozes que me acalmam durante esse encarnar. 

Da tela branca eu pulo para o bloco de notas no celular, não tão atraente quanto o analógico, que mora na minha cabeceira com a missão de me salvar de noites insones: cheias de ansiosos parágrafos escritos pela alma. Alguns, às vezes doem a cada ponto e vírgula, mas é essencial traduzir-me, mesmo que não faça sentido e os lampejos voem soltos em busca de uma rima que justifique sua existência. 

Se o mar de sinônimos resolve me visitar sem convite, eu procuro ignorar, ligo a tv, vejo 1 ou 2 episódios de Supernatural, como uma fruta, lavo a louça e leio um capítulo de “Cem Anos de Solidão”. Mas de depois de tudo isso, se eu não deixar de ter essas sintaxes, eu apenas ajoelho e rezo. 

“Ciao, Dio! Antes de começar, eu queria agradecer por hoje: pela saúde, proteção e alegria da minha família, amigos e conhecidos. Te chamei a essa hora da madrugada, porque não consigo parar – de escrever textos inteiros dentro de mim. Preciso dormir, amanhã é preto na folhinha, não posso chegar com a cara de um zumbi de The Walking Dead. Tá certo que já tenho cara de Vandinha por natureza. Rsrs. Dai-me paz e serenidade, Por favor...Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino.Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.Amém!” 

Sempre funciona. Tanto que me pergunto: Por que não rezei antes de tentar a tv, o livro e a música? Não sei. Talvez seja teimosia, talvez vergonha de recorrer aos céus essa minha redundante desorientação para criar concordância entre o que o corpo precisa e as coisas do coração.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AQUELE DOS 40% DE ASPERGER


No final de 2015, eu fiz um teste despretensioso que mostrou que tenho traços da Síndrome de Asperger. Mas confesso que não levei à sério. E, em poucas horas já tinha abstraído. Mais por uma questão de me considerar “normal” para tal diagnóstico, que por não aceitar ser tão peculiar.

O que eu não sabia é que passei a vida inteira como tímida, quieta, retraída e introvertida, papéis que eu não deveria ter aceitado representar sem contestar. Ou gritar para alguém: Eu não sou tímida! Apenas prefiro ficar sozinha, no meu mundo ou com a minha família e com os amigos, que conto com os dedos de uma só mão, em casa, lendo, ouvindo música, escrevendo ou assistindo filmes no cinema (meu programa preferido).

Mas com o passar do tempo, o quebra-cabeça que sempre tentei montar para começar a entender: a minha maneira de enxergar o mundo e outros; de me dedicar à temas específicos e super segmentados e de interagir, especialmente quando o assunto é amor (cheia de estratagemas - como a personagem Amélie), começou a se encaixar com os 40% do teste.

Peça após peça, fui tomando consciência de sintomas corriqueiros – que não me limitam (quem me conhece, sabe), mas justificam e me fazem compreender e aprender sobre os desafios comportamentais e emocionais – que busco reconhecer, para evoluir e levar uma vida mais feliz. Porque normal nunca será.

O status de peculiar sempre irá me acompanhar – através de pequenas sutilezas, como tapar os ouvidos – para evitar ouvir pessoas no corredor do meu prédio falarem da nova vizinha (no caso, eu); TOC de conferir porta, gás, ferro e agenda (com repetição de 3); ficar sem palavras em conversas triviais com quem não me sinto à vontade; me sentir desconfortável em aglomerações (happy hours, aniversários, etc) – para não falar dos silêncios.

No momento em que escrevo esse texto/desabafo, cenas de “Tão Forte e Tão Perto” (Drama Asperger com Sandra Bullock e Tom Hanks) passeiam por minhas lembranças em um movimento contínuo. Foi um filme que me marcou pela profundidade e pela porção que fez pensar, me identificar – com a angústia, mas também, com a delicadeza.

Agora, espero (ansiosamente) por dois livros que vão abrir minha mente (um pouco mais) pra esse re-conhecer. São eles: "O poder dos quietos", de Susan Cain e "O que me faz pular", de Naoki Higashida. E, sei que muita coisa me espera.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO


Peguei esse título emprestado de um livro do José Eduardo Agualusa, que acabei de encomendar. Há tempos o namorava na tela do computador, evitando negligenciar a promessa que fiz de não comprar mais livros até terminar a fila de doze que me aguarda em casa. Hoje, eu não resisti. Ao lembrar das palavras de Agualusa sobre a arte de esquecer, na Paulicéia Literária de 2015 e também, ao descobrir que a história foi baseada em um drama real, eu não pensei duas vezes. Saquei o cartão e aproveitei para pedir também “O poder dos Quietos”, de Susan Cain.

Agora, eu troco a negligência por ansiedade, para vencer os sete dias de espera. Até lá, me contentarei em imaginar os detalhes dessa história que parece ter talento para  transformar e transtornar o pensamento, com sutilezas que a vida moderna já não conhece mais. Ou finge, por reconhecer que, dia após dia, vem se tornando um sinônimo torto para a palavra efêmera.

A justificativa de bolso é sempre a mesma: as novas tecnologias. Mas, podemos notar que essa transformação vai muito além de gadgets na palma mão. Eles apenas deram voz – para informações, boas ideias, novos pesares e também, idiotas de plantão, que preferem reforçar que muitos não estavam preparados para o século XXI.


E, apesar de muitos duvidarem, essas sutilezas são as páginas que sustentam a nossa capacidade de guardar, suportar ou de esquecer o rumo do texto, os momentos, as dores e as pessoas que interferem na geografia de nossos caminhos.

Não existe tutorial, apenas dicas de quem já virou a página e seguiu em frente. Mas, somos seres únicos. Isso significa que cada um escreverá, desenhará ou cantará sua Teoria Geral do Esquecimento de um jeito diferente. A começar pela forma com a qual lidamos com o tempo, a tolerância e com que respeito e apreço enxergamos os protagonistas e os coadjuvantes que moram em nossas histórias.

terça-feira, 30 de junho de 2015

EU, PALAVRA

No vazio. Cheio de nada. Nada além de abstrações profundas, daquelas que fazem a razão divagar por horas a fio questões sem respostas, como tempo, felicidade e realização. Me dei conta que só sei ser com palavra. Palavra escrita, traçada com geografia certa para transformar, representar e revelar o pensamento – seja ele sutil ou subliminar. 

Como palavra, pontuo de maneira reticente todo olhar que lanço diante do outro, da percepção que o outro constrói sobre minha interação com o mundo e as coisas do coração. Sempre repletas de delicadeza quando o assunto é amor, amizade, apreço, saudade, angústia e ansiedade. 

Ponto e vírgula; nasce uma sintaxe capaz de causar convulsão na alma, cansada de tanta espera, tanto porquê, tanta mania de buscar significado pra tudo que o corpo alcança com a mente, mas que desconhece com os dedos, tanto ranger de dentes ao perceber que nem tudo é como esperava, tanta pausa para refletir erros e ausências, tanto muro para frear a vontade (vista como insana) de amar quem o coração escolheu (há tempos – talvez já em outra vida). 

Diante da página branca desenho mil concordâncias para me esvaziar desse vazio, que só se perde quando se faz assim, com palavras soltas, quase sem sentido aos olhos seus. Aos meus, são antigas. Já que antes foram escritas aqui dentro...<3

Uma redenção que nasce de dentro para fora, de fora para dentro, num exercício de sobrevivência capaz de calar demônios e o pranto que desagua na cia de um bom vinho tinto e canções italianas que despertam “muiteza”, como diria o Chapeleiro Maluco. Depois de palavra, só sou abstração. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

É TUDO SEU

É tudo seu, meu amor.

Esse corpo remendado por saudades e marcas que teimam em não sumir,
em não virar cicatriz tatuada sob a pele.

Esse coração meio vazio e meio cheio.
Vazio por sua ausência.
Cheio por lembranças e apegos.

Essa alma que clama pelo seu abraço, seu colo,
seu beijo, seu andar charmoso por entre as sombras, calada noite.

Os pensamentos...
Vem e vão [ao seu encontro] a cada 5 minutos.

E cada centímetro passou sussurrar por ti,
assim que me dei conta que era sua posse, sua morada, seu porto, sua fuga voraz: Amor.

Essas palavras...
Escrevo antes dentro de mim...
Todas em letras maiúsculas, na tentativa que sinta, veja e ouça [em alto e bom som] esse meu pulsar contínuo, minha vida.

É tudo seu, amore.
Vivimi.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

AQUELE DO TESTAMENTO

A ideia do texto de hoje nasceu espontaneamente de uma conversa com uma amiga enquanto esperava o ônibus para o trabalho. Ela me zoou por querer programar nossa viagem para Uberaba no feriado de Carnaval, mesmo faltando duas semanas. “Nem sei se vou estar viva amanhã, Ju” ela disse. Dei risada, mas parei para pensar em minha ansiedade, vontade inútil de controlar o tempo e, principalmente, em minha existência: duração, sentido e intensidade. 

Em segundos embarquei em uma viagem de dentro para dentro que me levou até o centro dessa inquietude chamada amanhã. Lá eu iniciei um passeio por saudades imensas, daquelas que chegam a doer e calar fundo o coração. Depois que a dor cessou com uma dose de esperança e intuição, eu visitei os desafetos, que felizmente são poucos. Desejei com todas as forças, ter ao meu lado pessoas queridas que estão tão tão distantes da minha geografia. 

No final do tour me vi diante de um exercício mórbido, mas não menos divertido. O de desapegar de tesouros, objetos e apreços com um testamento que contava com uma cláusula irrevogável: Não será permitido aos beneficiários desfazerem dos artigos herdados, mesmo que estes sejam abstratos, como amor, respeito, carinho, admiração, cumplicidade e afinidade; ou simbólicos, como os álbuns da Norah Jones, os livros da Eliane Brum, o box de Friends e os filmes da Audrey Hepburn, Audrey Tautou e Juliette Binoche. 

Comecei a leitura mental do testamento. O primeiro beneficiário, meu pai. À ele deixo um amor imenso, uma admiração que me deu forças para superar todas adversidades que apareceram no meu caminho. Deixo também toda minha coleção da Laura Pausini. Porque sei que ele cuidará bem e curtirá como ninguém. 

Bem na hora que ia selecionar tudo que vou deixar para minha mãe, o ônibus parou diante de mim, por pouco não me atropela, dada a minha introspecção. Interrompi o exercício fúnebre para entrar, passar a catraca, escolher um lugar e abstrair até a hora de descer no ponto da Avenida Rebouças com a Rua Pinheiros. Mas a sensação de quase morte foi tamanha que esqueci de continuar com o lance da herança. O coração estava acelerado e eu, sem jeito, tentando disfarçar para os passageiros que me olhavam com preocupação, que estava tudo bem. É vida que segue, pra minha alegria.